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Marcos Paulo Galinari [ redator e roteirista ]

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Regime

Texto: Regime
Autor: Marcos Paulo Galinari


Meu médico disse que preciso
perder 5 quilos.
Comecei ontem.
Ontem às sete da manhã
pra ser mais exata ...
É automático né.
Você levanta, toma banho,
se troca e já vai abrindo a geladeira.
Eu falei êpaa !
Pára com isso já !
Resolvi fechar a boca. (DETERMINDADA)
Começava alí o meu regime.
E olha que não era nem segunda-feira ...
comecei na quarta mesmo. (ENFÁTICA)
Meio da semana.
É ... por que se você começa na segunda
Você já começa desistindo ...
mas dessa vez não ...
ah, dessa vez não ...
Estou empolgadíssima !
Torradinha no café da manhã ...
Magina ! Pode tanta coisa !
(EXAGERA) Uma fatia assim ó,
de queijo branco,
mamão ...
e água ... à vontade.
Quase me atraso de tanto mastigar.
No trabalho,
na hora do almoço eu ...
É ! Eu almoço no restaurante da empresa.
Todo mundo alí, reunido.
Não, tem gente que ...
eu acho que faz de propósito mesmo
só pra provocar ...
É ! aquela MAGRELA do departamento pessoal.
Horrorosa, fingida ...
Não sei como não enfarta de
tanto comer.
... e eu lá né ... firme ...
mastigando a minha ... alface.
Na parte da tarde, um lanchinho leve ...
ah, chá ... (rs)
chá pode ! a vontade !
O pior é que, não dá mais
vontade.
(DEPRESSIVA) depois, não comi mais nada ...
só uma sopinha leve, rala ... antes de dormir ...
(ANIMADA) mas ainda tinha água ...
(NERVOSA)Tomei tanta água ...
que não saí do banheiro.
(CONFORMADA)Agora já são 4 da tarde.
Segundo dia de regime.
Contados ali ó, todas as horinhas do dia ...
me sinto leve, com uma leve dor de cabeça ...
(PENSATIVA)
(rs) Se bem que, tem um chocolatinho aqui na minha bolsa ...

Taxímetro

Texto: Taxímetro
Autor: Marcos Paulo Galinari


... eu peço sempre pra parar
um quarteirão depois ...
é ... e ainda fico de olho ...
Pelo menos assim eu não dou tanta bandeira ...
Ah, quer saber ?
Tanto faz também ...
A cabeça fica às vezes
um pouco confusa é verdade ...
Dá um nó mesmo ...
Um dia desses um cara me falou
por que eu insistia ?
Por que eu levava essa vida ?
... depois, me contou a vida inteira ...
que era casado, que tinha filhos ...
me falou até da sogra dele ...
tem idiota que pensa que eu sou psicóloga,
terapeuta, sei lá
o que ... ficam pendindo conselho ...
... se eu pudesse dar algum tipo de conselho ...
no fundo mesmo,
eu to é me lixando pra tudo isso ...
nem tudo é eterno mesmo.
NADA dura pra sempre ...
rs ... eu dô risada desses idiotas ...
... rs me divirto com esses
babacas ... rs
... é, eu sei ...
a vida não ta fácil pra ninguém ...
... eu sei ...
mas que às vezes eu ganho fácil, eu ganho ...
já tive problemas também ...
... já levei na cara ...
levei porrada mesmo ...
tive até que correr,
deixei tudo pra trás ...
... mas no outro dia,
eu tô aqui de novo ...
eu escolhi assim ...
não ... aqui não !
... tá vendo aquele carro ?
... é ... vermelho !
pára ali ... depois daquela esquina ...

Surpresa !

Texto: Surpresa
Autor: Marcos Paulo Galinari


A noite era perfeita.
Era perfeita ...
Era ...
Calma, eu vou contar ...
Ô ‘grande’ ! traz mais uma pra gente aqui !
Foi mais ou menos assim ...
Eu saí cedo do trabalho, corri pra cacete
o dia todo, afinal, tinha que dar tempo.
Peguei um puta trânsito na marginal.
Você olhava assim ó ...
Tuuudo parado ...
Tudo ...
Tudo parado ...
É !
Um inferno !
Fui ligar pra ela ...
Meu celular sem bateria ...
Ah, tudo bem né ...
Rs ... mas eu não via a hora de chegar em casa.
Eu ia fazer uma surpresa ...
Já tinha comprado vinho ... um arranjo
Assim ó ... bonito pra caramba ...
É, arranjo de girassol ... não, não tinha só o girassol não,
Tinha de tudo dentro. Creminho, bolachinha,
sabonetinho ... tinha até um ursinho de pelúcia ...
Chama cesta ‘Satisfação’.
Tõ te falando ! Coisa boa, gastei uma grana ...
Não, você tinha que ver ...
Tava tudo no carro.
Tudo certinho ...
E aquele trânsito parado, e eu que não
chegava nunca ... puta desespero cara.
E eu cheguei ...
Uma hora a gente chega né ...
Pois é ! Cheguei.
Minha mulher ?
Tava em casa sim ...
Poxa cara, me recebeu com os braços abertos, aquele amor
todo, pegou a cesta ‘Satisfação’.
Lógico que ficou surpresa ! Não esperava né ...
Ela abriu um sorriso enorme, foi tirando uma coisa, outra coisa e outra e outra, e me dava beijinho, e me dava mais beijinho ... ah, eu me derreti todo né ...
pegou o cartão foi lendo, foi ficando emocionada, foi ficando vermelha, foi ficando com uma puta raiva e me jogou tudo na cara ... meu chapa, ela ficou ‘loquinha’ ! ‘loca’ !
tava lá: Para Elizabeth, de seu eterno amante, Neném.
Cara ! O filho da puta da floricultura trocou os nomes dos cartões !
o que que eu podia fazer ? na hora eu saí correndo !
Foi Girasol pra todo lado ! ursinho passando por cima da minha cabeça ... Um horror !
Ah, isso foi ontem ...
Agora o telefone toca e ela nem atende ...Ô grande ! cadê ? pedi já faz um tempão !

Trânsito

Texto: Trânsito
Autor: Marcos Paulo Galinari


Cara, isso foi em pleno trânsito de São Paulo
Não ... imagina ... aquele monte de carro – tudo parado
Você olha de lado ...
Ela ... bem ali do meu lado ...
(rs) ... tava com um espelhinho daqueles de maquiagem
dando uns retoquesinhos ...
Como se precisasse né ...
Na hora mesmo eu nem acreditei ...
Olhei de novo ...
Aí pensei ... eu vou lá ...
O trânsito tá parado mesmo ...
dá tempo ...
Mas desisti, era dar bobeira demais ...
Podia até pensar que era um assalto ... hoje em dia sabe como é ...
Melhor ... eu vou dar uma buzinadinha ...
... é mas aí o cara da frente podia pensar que era com ele né ...
imagina o cara saindo do carro vindo até aqui tirar satisfação,
ela ia ver ... não ... buzinar não ...
vou dar um tchauzinho ...
dar tchauzinho também é patético ...
eu acho imbecil aquela coisa de ficar dando tchauzinho ...
... se bem que eu ainda tenho o número dela ...
e seu eu ligasse ? não, melhor não ...
também, acho que o número nem deve ser o mesmo ...
enquanto isso ela ainda estava lá ...
retocando a maquiagem ...
(rs) como o tempo é generoso com algumas pessoas ...
o trânsito continuava parado ... minha cabeça a mil é lógico ...
de repente eu voltei na infância ... parece que via tudo quadro
a quadro ... lembrei de cada ano, de cada coisa ...
nossa ... e meus aniversários ... todo mundo lá ... cara não dá nem pra falar ...
de repente ouço o som de uma buzina ...
era o carro de trás – o trânsito estava andando ...
aí olhei de lado ... não vi mais ninguém ...
é ... eu fiquei triste é claro ... eu podia ter feito de tudo ...
buzinado, dado tchauzinho ... ido até lá ...
(decepcionado) faltou coragem mesmo ...
eu nem saberia o que dizer também ...
mas valeu ... nossa se valeu ...
pelo menos por alguns instantes ... eu voltei no tempo ...
... ela parecia estar muito bem ...
um dia eu tomo coragem e vou falar com ela ...
... eu saí de casa muito cedo ... foi uma discussão
terrível ... isso já faz alguns anos ...
cara ... como foi bom ver minha mãe de novo ...